Mike Patton - Mondo Cane
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ficha técnica
Nota: 4.5 / 5
Ano: 2010
Selo: Ipecac Recordings
Estilos: cover, canção, italiano, estranho
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Mike Patton - Mondo Cane
Uma romântica homenagem ao cafona na forma de cancãos italianas clássicas
22.04.10 15:30
Quando soube que Mike Patton estava lançando um disco-solo só com regravações de canções italianas das décadas de 50 e 60, dois pensamentos vieram à mente. O primeiro foi "Nossa, esse cara realmente não tem sossego". Além de ser vocalista do Faith no More, grupo de funk-o-metal que emplacou hits como "Epic", "Small Victory" e "Easy" no fim dos anos 80 e começo dos 90, e que voltou à ativa no ano passado (o FNM se apresentou em São Paulo no Festival Maquinaria em novembro), ele fez/faz parte das bandas Mr. Bungle, Tomahawk, Peeping Tom e da ultra-experimental Fantômas, que esteve no Brasil no festival Claro que é Rock m 2005 e é certamente o ser mais estranho já nascido dentro do gênero metal. Também gravou em parceria com o compositor de vanguarda John Zorn, fez participações especiais em discos de bandas como Sepultura, Melvins e Massive Attack e vive se envolvendo em projetos - o tamanho do artigo Mike Patton Discography na Wikipedia dá uma boa ideia do quanto o moço é produtivo.

A segunda coisa que pensei foi "O que será que esse maluco aprontou com canções italianas?". Conhecendo o disco The Director's Cut, do Fantômas, no qual famosos temas de filmes foram virados do avesso (alguns se tornaram absolutamente irreconhecíveis), imaginei que Patton fosse converter canções românticas em pura barulheira. Mas como ele é realmente chegado em uma esquisitice, resolveu fazer a coisa mais estranha e improvável possível: ser fiel às gravações originais.

Antes de analisar Mondo Cane, é interessante saber a história que há por trás do disco. Tudo começou pelos idos de 2001/2002, época em que o estadunidense Patton morou em Bolonha e, por meio da programação de uma rádio local que só tocava canções italianas antigas, acabou se apaixonando pela música local - não pela música folclórica e sim por essas canções populares que, como ele mesmo disse em entrevista ao site ARTISTdirect.com, eram de certa forma "um espelho estranho do que acontecia [em termos musicais] nos Estados Unidos". Já nessa época passou a namorar a ideia de revisitar essas canções em disco, mas o projeto só começou a tomar forma em 2007. Acompanhado de banda, orquestra e um pequeno coro, ele apresentou na Itália três shows com esse repertório. Nos anos seguintes, o disco foi sendo montado escolhendo o melhor de cada apresentação, em uma criação à lá doutor Frankenstein: uma mesma música pode ser composta pelos violinos do show X e as vozes do show Y, por exemplo.

Na mesma entrevista ao ARTISTdirect.com, Patton explicou que a decisão de não alterar completamente os arranjos originais foi uma questão de respeito, já que as originais são "meio que intocáveis". Comparando-as com as releituras pattonianas, percebe-se que o caminho escolhido foi o de exacerbar elementos já presentes nas canções. Assim, músicas que tinham uma certa tendência dramática e grandiosa ganharam arranjos que se aventuram sem medo pelo território da cafonice (caso das exageradas "Ore D'Amore" e "L'Uomo Che Non Sapeva Amare"). Mas mesmo assim, o resultado final não é uma mera cópia ampliada do original: no disco há algum espaço para o esquisito (como a introdução de "In Cielo in um Stanza"), atrás da orquestração por vezes pomposa sempre há algum barulho ou instrumento incomum, e a interpretação vocal de Mike Patton não se restringe ao estilo "galã apaixonado". Ainda que não trabalhe com vocal gutural e grite bem pouco em Mondo Cane, ele brinca bastante com timbres, alternando momentos em que entoa melodias como um gentleman com momentos em que a voz aparece rouca, fanhosa ou em falsete descarado (porém afinadíssimo).

Outro trunfo de Mondo Cane está na escolha do repertório. que não se resume às canções que fazem a alegria de nossas tias-avós, e explora facetas menos conhecidas da música italiana. "Che Notte!", do cafajeste boêmio Fred Buscaglione, é um achado. O arranjo cheio de metais mezzo jazzísticos mezzo circenses acentuou ainda mais o ar divertido e gaiato da original (a nova versão lembra um pouco a sonoridade do grupo de punk cigano Emir Kusturica & The No Smoking Orchestra). Em "L'Urlo Negro", lançada pela banda de rock italiana The Blackmen em 1967, Patton aproveitou o tom rebelde original para soltar uns berros e usar guitarras distorcidas. A mudança brusca de climas que já existia na gravação de 67 aqui é levada a extremos: de um compasso pro outro, a música vai do hardcore à Jovem Guarda e de volta ao hardcore.

Patton também acertou ao incluir duas músicas do célebre compositor de trilhas sonoras Ennio Morricone: a sexy e viajante "Deep Deep Down" (do filme obscuro cult Danger Diabolik) e "Quello Che Conta" (do filme italiano La Cuccagna). Nesta última, no entanto, ele foi um tanto infeliz na escolha do novo arranjo: enquanto a original é uma canção delicada, de atmosfera cool e vocal nada afetado, a regravação descambou para o melodrama.

Mas essa escorregadela não é suficiente para prejudicar Mondo Cane. Afinal, como Mike Patton afirmou em entrevista ao site Noisecreep: "Se você gosta de música orquestrada e tem um coração na porra do seu peito, vai gostar deste disco". Difícil discordar.

Obs.: o lançamento do disco nos EUA está marcado para o dia 4 de maio, mas, como é de praxe, já está disponível na Internet.
MP3
Flash Content
MIke Patton - Che Notte! (mp3)

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MIke Patton - Deep Down (mp3)

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MIke Patton - Ore D\'Amore (mp3)


Raquel Setz
Raquel Setz
Barulhos, experimentações e esquisitices em geral
comentários
2 comentários
Raquel Setz
Raquel Setz(24.04.10)
1AprovadoQueima
Falando em curiosidade, quem quiser conhecer as versões originais das músicas de Mondo Cane, é só dar uma espiada aqui: http://destruindopianos.blogspot.com/2010/04/mike-patton-x-originais.html
esse cara e frito, gosto da ousadia .. deu uma curiosidade