Para fugir do minimal, Sascha Ring recorre a humores, interlúdios e dubstep
11.11.10 16:35
Depois de ficar 2 anos sem lançar nenhuma edição da DJ-Kicks, o Studio !K7 fez um mea-culpa generoso ao soltar, em pouco mais de um ano, cinco edições interessantíssimas: Chromeo, James Holden, Juan MacLean, Kode9 e agora Apparat. A coletânea de Sascha Ring é saborosa também para os brasileiros que puderam conferir seu DJ set no D-Edge no começo deste ano, uma festa e tanto.
É um set que, como ele próprio explicou, não resume referências e predileções antigas, mas lista artistas contemporâneos e da nova geração que salvam a música eletrônica de hoje do "minimal techno" chato. Crítica uma pouco 2006 demais, não?
É um CD-mix de forte apelo, mas sem muitas ousadias no que diz à mixagem, o que dá um certo ar de mixtape por não ter coisas curiosas e por trazer tanto artista parecidos, que soam contemporâneos ao próprio Apparat. Ao sacar o release e ouvir o disco, impressiona como o Sr. Sascha Ring deve ter um ego difícil de ser controlado: além listar-se ao lado de nomes fortes da dance music que vai do conceitual ao dançante, ele colocou três faixas novas suas (uma com vocais: "Circles"). Não bastasse isso, ele cai em uma certa incoerência ao falar mal do minimal, concepção que era um hype, mas marcou a cadência e a a alma de muita da música que tem sido lançado por artistas como ele e tantos outros listados aqui e em seu tracklist, que transborda sua personalidade.
Destaques são Pantha du Prince, uma nova do Telefon Tel Aviv e Luke Abbot - que fez o disco mais interessante de eletrônica do 2º semestre, o Holkham Drones, além de remixes esquisitões de Autechre e Four Tet. No press release, Apparat conta como usou faixas interlúdicas para transitar entre diferentes climas - uma de suas músicas gravadas para o disco incluiu uma tal "Interlude" -, mas isso pode ser sinal também de um estilo de mixagem ainda um pouco novato, ou talvez não proveniente do 4x4 techno mixável sempre em linha reta, de forma longa e contínua, ad infinitum.
APPARAT - DJ KICKS
Deixando de apontar o dedo sempre com poréns no set do cara, essas transições podem significar que Apparat será sempre um cara das melodias e blips harmônicos e estelares, sendo os interlúdios respiros de contemplação entre o dançante e coisas cavernosas, como o remix de "Falling", do Autechre para o Scorn (um set só de nervosismos assim seria breakbeat). Essas mudanças de humores são bem gostosas nas notas elásticas, reverberadas e compridas de "More Room", uma jóia sentimental de Luke Abbot, e também quando entram as pedrinhas sacolejantes e os metais de "Welt Am Draht", a música mais emocional do maravilhoso Black Noise que Pantha lançou esse ano. E ainda tem a "Moth" do Burial + Four Tet, que dispensa análises com sua beleza imensa, música esta que eu gostaria que fosse a música do meu funeral.
QUEBRADEIRA E THOM YORKE A reta final do disco traz um respiro dubstep que talvez seja o maior momento da fuga minimalista que ele propagou. Começa com "Harrowdown Hill" do Thom Yorke, que é toda picotada em beats e efeitos, que também é um hino dessa geração berlinense Bpitch Controller... Daí o samba cai pra suingada "The Shrew Would Have Cushioned The Blow", de Joy Orbison, e tem um epílogo mais introspectivo e crepuscular com "Worn Down", ótima abstração de T++ (um dos caras do Monolake).
Apparat @ D-Edge (13/mar)
O DJ-Kicks do James Holden cumpre melhor, com muito menos pretensão e lábia, a ideia de não só fugir do minimal, mas também apresentar novas formas do minimalismo do techno. Coisa que ele fez num set mixado com muito mais excelência e técnica, até mesmo difícil de absorver.
Apparat, com sua pose de superstar da música conceitual, precisa alinhar-se tanto com nomes do experimentalismo pré-mainstream como Radiohead e Four Tet para estar bem na fita, e recorre à complexidade do dubstep para ser ousado - o que na real não assusta mais ninguém em 2010. De qualquer modo, é uma boa compilação de hits e, principalmente, harmonias e humores eletrônicos, tocados por um músico que conseguiu abusar tanto da orquestração eletrônica em grande parte de forma orgânica.
TRACKLIST 1. Apparat - Circles 2. 69 - Rushed 3. Telefon Tel Aviv - Lengthening Shadows 4. Apparat - Interlude 5. Luke Abbott - More Room 6. Oval - Legendary 7. Patrice Bämel - Sub 8. Martyn - Miniluv (Original Mix) 9. Ripperton - Echocity 10. Cosmin TRG - Tower Block 11. Scorn - Falling (Autechre "FR 13″ Remix) 12. Born Ruffians - I Need A Life (Four Tet Remix) 13. Pantha Du Prince - Welt Am Draht 14. Phon.o - Intervall 15. Burial + Four Tet - Moth 16. Vincent Markowski - The Madness Of Moths 17. Ramadanman - Tempest 18. Thom Yorke - Harrowdown Hill 19. Spherix - Lesser People 20. Oval - TV Power 21. Joy Orbison - The Shrew Would Have Cushioned The Blow 22. Apparat - Sayulita (DJ-KiCKS) 23. T++ - Worn Down 24. Tim Hecker - Borderlands
Comparando sua apresentação no motomix 2007 com Orchestra of bubbles com a Ellen A. e esse cd .... mostra sua qualidade como dj e produtos mas .... nada de diferente do que estão vendendo por ai... Quero ver mandar 15/20 tracks próprias com toda essa contemporanealidade...
boa resenha. tbm acho isso desse mix. o apparat anda meio over, musicalmente falando. mas por outro lado, se 30% de quem faz musica eletronica tivesse o pesamento dele...teria um monte de gente fazendo musica legal, original e não igual a todo mundo.
A parte sombria e linda do Moderat que o diga...