Sensibilidades pós-digitais em contato com a estrutura clássica house.
Um assunto que parece ser fonte para infinitas meditações é a house music. A cada nova geração que se depara com esse período de gênese das possibilidades eletrônicas, uma nova re-interpretação. O compositor Daniel Martin-McCormick tem no currículo dois projetos bem experiementais que tem um relativo sucesso, o
Mi Ami e o
Sex Worker. Ambos lidam com a música de forma entorpecida e diluída. Mas com o Ital, o cara foi rumo ao infinitamente narcótico, estruturas infinitamente líquidas.
Hive Mind, o primeiro lp do Ital, já se inicia dessa forma. Um gaguejar neurótico, ilógico e randômico repete "it doesnt matter if you love him", por cima de uma batida seca que nos lembra do tradicional andamento 4 x 4 de Chicago. A canção evolui de forma caótica e só é resgatada do redemoinho por uma derretida sequência de acordes sintetizados. Tão incomum quanto o lampejo de Whitney Houston que acontece durante a música.
Esse tipo de neurose claustrofóbica se repete pelo disco. Muito além da psicodelia descompromissada e amigável, as viagens propostas por Martin-McCormick são mais nebulosas. O Ital se aproxima a turma pós-digital (gente que abusa das possibilidades digitais sem compromissos e vem tirando dos seus computadores os sons mais inusitados da atualidade, como oOoOO e a turma da tri-angle) com paisagens amedrontadoras, como o vale escuro pintado na faixa "Privacy Settings", que desce entre duas colunas maçicas de pedra negra por onde se ouve lá do topo uma alcateia feróz à espreita.
Martin-McCormick se aproxima do pós-digital sem se tornar muito caricato. A onda pós-digital cai muito fácil em alguns tipos de clichês. Martin-McCormick fala da expansão infinita do conteúdo e das possibilidades de nossos cérebros também se expandirem para acumular esse conteúdo, sem o arquetipo hippie de "nova-era". Ele até esbarra na cafonice ao falar de Aliens e traz uma arte de capa bem encaixada na última modinha de design. Mas o Ital foge disso tudo emprestando da house music a sua estrutura fundamental.
E por fundamental, entenda-se ritmo, dinâmica. Tudo aquilo que caracteriza sonicamente o house em sua essência. Kicks 4x4, build-ups climáticos e breaks apoteóticos, como na derradeira "Floridian Void". E ao mesmo tempo, é um design de som muito mais próximo ao acaso e experimentação do que outros "filósofos" da house music, como
Blondes e
Wolf & Lamb, que emprestam do house também o conteúdo histórico e social. O som do Ital é espalhado como uma rede, tocando ao mesmo tempo vários pontos e agrupando significados. Nada é de uma só forma dentro dessas composições (talvez venha daí a sensação claustrofóbica). A cada instante uma referência se choca com outra e causa uma nova intepretação dela mesma, de modo que
Hive Mind é conciso sem ter uma temática ou iconografia sonora definida.
Fronteiriço e agressivo, distante e caótico. A meditação sobre a house music feita pelo Ital talvez prenuncie o esgotamento desse novo ciclo de re-interpretações da música de Chicago, que esteve bem presente no panorama musical dos últimos dois anos. Talvez quando todos estiverem falando de alguma outra coisa, Martin-McCormick venha com sua picareta e derrube outra parede de significados.
Disco bem difícil. Há passagens legais, mas pouco digestivo.
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